Trabalho emocional com sobreviventes de violência doméstica: reflexões a partir de um projecto em curso

De Quinta, Abril 16, 2020 até Quinta, Maio 14, 2020 · Coolabora em parceria com outras entidades

Amélia Augusto, Departamento de Sociologia, UBI; CIES-IUL

Enquanto representante da Universidade da Beira Interior na parceria do projeto “Rasgar Silêncios – escrita autobiográfica com mulheres sobreviventes de violência de género e doméstica”, e particularmente enquanto socióloga, tinha um compreensível interesse em participar nas oficinas de escrita autobiográfica, por elas implicarem um trabalho direto e próximo com as mulheres, e pelo potencial transformador que reconhecia à metodologia. E assim tem sido, desde o início das sessões, assumindo o papel de facilitadora, mas também movida por um inegável interesse científico.

Este texto procura dar conta de um conjunto de questões e inquietações que o envolvimento nas oficinas me tem vindo a suscitar, num exercício autorreflexivo que aqui materializarei pela primeira vez, de uma forma necessariamente breve e incompleta, e que espero desenvolver noutro contexto. Muitas das reflexões e questionamentos foram feitos em conjunto com a Graça Rojão, com quem partilho a condução das sessões, a formação académica e a veia emocional. Foram muitos os momentos em que partilhámos dúvidas sobre o andamento e as implicações do trabalho que desenvolvíamos nas oficinas de escrita.

Sendo socióloga e investigadora, conheço a especificidade e as dificuldades de desenvolver estudos qualitativos em tópicos sensíveis e junto de grupos vulneráveis. O trabalho com vítimas de violência doméstica providencia uma ilustração nítida das questões que se relacionam com o risco inerente, com a confidencialidade, com a revelação, com os princípios éticos, com a necessidade e as dificuldades de um consentimento realmente informado e esclarecido. A primeira preocupação após a aprovação do projeto foi a sua submissão à Comissão de Ética da UBI, não apenas para ter o respaldo de uma comissão desse tipo, mas também para obtermos uma avaliação independente dos nossos procedimentos, tendo o pedido obtido aprovação. Mas foram as questões que não encontramos frequentemente num manual de investigação e que não pertencem aos processos formais no desenho e condução dos projetos que se foram impondo e povoando as nossas conversas de balanço das sessões.

A escrita é a base das oficinas, mas é também difícil, por não ser imediata, exigir reflexão e permanecer muito para além das palavras ditas. Muitas vezes nos questionámos se o método resultava, se tinha a capacidade de rasgar silêncios, resgatar memórias dolorosas e transformá-las, dar-lhes novo significado; se o que fazíamos ali conduzia efetivamente ao empoderamento daquelas mulheres, ou se os efeitos se esgotavam na partilha de experiências e no convívio que todas pareciam procurar. Nunca quisemos fazer da violência o centro das sessões, aliás, a literatura recomendava que não o fizéssemos. A intenção era que cada uma contasse a sua história de vida, momentos ou episódios da mesma, por meio da escrita. Estávamos preocupadas em trabalhar o sofrimento, sem causar mais sofrimento. Mas a verdade é que, intermitentemente, o tema da violência irrompia, impunha-se, sobretudo quando conversavam. E, um dia, tivemos de dizer “hoje vamos falar da violência” e foi como se uma torrente se soltasse. Para mim, significou que, em dados momentos, ninguém melhor do que quem partilha tempo, emoções e verdades indizíveis no terreno para tomar decisões que podem mesmo ir no sentido contrário ao indicado nos manuais.

A incerteza da efetividade do nosso trabalho foi sendo uma constante ao longo das sessões, causando uma angústia que nos impelia a repensar estratégias, a redefinir planeamentos. Até que fomos chegando às sessões finais, em que fazíamos o balanço das atividades com as mulheres. E mesmo após termos sido testemunhas de tanta dor, tanta humilhação, do rasgar de tantos silêncios, foi nesse momento que não conseguimos conter as nossas emoções, e por instantes parecíamos ter trocado de lugar com aquelas mulheres, que procuravam perceber o motivo de tal comportamento. E era simples, foi uma reação a ouvi-las falar sobre o que as oficinas de escrita tinham significado para elas, o que lhes tinham permitido, o que tinham mudado dentro de si. Nunca poderíamos ter antecipado que o processo pudesse ter culminado numa catarse por parte das facilitadoras.

E isto conduz-me a uma reflexão final, relativa ao modo como os projetos envolvendo temas sensíveis e grupos vulneráveis podem impactar tanto em quem neles participa, como em quem os conduz. A vulnerabilidade e a angústia acabam por ser partilhadas pelos dois lados, já que frequentemente somos confrontadas com as nossas próprias emoções, com a zanga e o sofrimento que os relatos causavam, com sentimentos de incerteza e impotência. Mas dessa experiência resultou também a convicção de que o envolvimento emocional é uma competência para construir uma relação próxima e bem-sucedida com mulheres vítimas de violência doméstica, e de que o trabalho de investigação não é apenas um trabalho intelectual, deve ser também um trabalho emocional.

 

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