Opinião: Maria José Casa-Nova, Universidade do Minho

De Terça, Janeiro 21, 2020 até Sábado, Fevereiro 29, 2020 · Coolabora em parceria com outras entidades

OPINIÃO

(Im)permeabilidades e Es(en)tranhabilidades da Diferença

Maria José Casa-Nova, Universidade do Minho

(Coordenadora do Observatório das Comunidades Ciganas) 

mjcasanova@ie.uminho.pt 

 

Pediram-me para escrever um texto. Não sei que texto vou escrever, mas sei que conterá interrogações. Do princípio ao fim. Sobre a relação entre diferentes. Sobre cada um/a de nós como ser humano, interpelando-nos.

Numa sociedade multicultural, que mundo pintamos, que mosaicos construímos em vez de bazares onde tudo se encontra, onde tudo se pinta, onde tudo se mistura, se miscigena para cada um/a se encontrar na sua singularidade construída e pintada a várias mãos, de vários mundos? Que sentido atribuímos às multiplas diferenças e como as acomodamos no nosso quotidiano? Como se permeabiliza e flexibiliza o ser humano, como se constroem sociedades porosas, respiráveis, entranháveis? 

Construir diálogos produtivos significa dialogar (fazer-se ouvir e escutar) com o que difere de cada um/a, com o que pensa divergentemente do outro; com o que pode ser oposto em termos de estruturação mental e de ordenação do mundo social. O diálogo que faz interrogar e crescer cognitiva e intelectualmente, é aquele que emerge de interlocuções que colocam o próprio em conflito interno; que produz perplexidade até reestruturar o mapa cognitivo e sociocultural, acomodando uma nova realidade. É este último que se procura na tentativa de diálogo entre as múltiplas diferenças que atravessam os quotidianos e que interpelam irremediavelmente o ser humano a estender a sua racionalidade para alcançar a racionalidade do outro e vice-versa. Sem tolerâncias, paternalismos e hierarquias socioculturais. Com a consciência da importância de construção de igualdade na vulnerabilidade e no poder nas relações de sociabilidade. Este é o princípio do diálogo que faz crescer o presente para o alongar num futuro possível, onde as múltiplas faces do racismo e da discriminação, cruzando passado e presente, se diluam num mar de múltiplas cores de igual intensidade e valor.

Como referia Confúcio, “transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha”. Cabe a cada um e cada uma ser mero figurante ou ator social político de uma História que pode sempre ser outra se forem outros os atores que produzem os contextos onde os acontecimentos têm lugar. Cabe, portanto, a cada um e cada uma a

possibilidade de alterar o curso da História. Se, como refere Frei Bento Domingues[1], “precisaremos sempre dos outros para existir como humanos”, falta-nos construir humanidade.

O conhecimento da História importa para que os factos sociais negativos não se repitam e deve ser esta a lição a retirar da História, não fazendo do presente um lugar e um tempo vazios de passado. Tendo em mente a historicidade dos processos, é fundamental construir um presente de igualdades com fraternidades, perspetivando cada ser humano na sua verdadeira dimensão humana. É esta igualdade com fraternidade que falta construir na relação entre diferentes nas mais diversas esferas do social.

Será ainda necessário dizer que é na humanidade que reside o potencial e o motor da mudança das realidades que oprimem, subalternizam, hierarquizam, robotizam e anestesiam os seres humanos? E que depende, portanto, de todos/as e de cada um/a de nós proceder a uma transformação de mentalidades que potencie relações de sociabilidade com igualdade?


Fonte fotográfica: Jornal Online UMINHO

[1] DOMINGUES, Frei Bento (2018), “Deus, livra-me de deus”, in Jornal Público, 11 de Novembro.

 

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