Um dia do Gabinete de Apoio a Vítimas – CooLabora

De Terça, Janeiro 21, 2020 até Quinta, Abril 30, 2020 · Coolabora em parceria com outras entidades
O ano de 2019 acaba de findar. A CooLabora, por via do Gabinete de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica, atendeu, apoiou e acompanhou 224 vítimas de violência doméstica e de género, maioritariamente, mulheres. Estes casos (135 novos e 89 antigos) revelam que a violência prevalece e, pior, que os casos são, predominantemente, mais violentos e, consequentemente, com medidas mais graves. Ora, tendo em conta este cenário, quisemos perceber melhor o funcionamento deste gabinete que, desde o seu início, já apoiou cerca de 1000 vítimas de violência. Este texto é um resumo de um dia do Gabinete de Apoio a Vítimas, na CooLabora.

São 9h00. O cheirinho a café, os sorrisos matinais de uma equipa coesa e bem-disposta, e a primeira troca de informações sobre a agenda antecedem um dia relativamente calmo. “Tenho seis atendimentos para hoje.” Diana Silva, que apresenta um nível de energia logo pela manhã semelhante ao de uma atleta de alta competição, geria, assim, a agenda daquela terça-feira de fim de ano no Gabinete de Apoio a Vítimas (GAV), na CooLabora. Eis que, ainda o aroma a café pairava no ar, toca o telemóvel do gabinete, o que aumenta o alerta de toda a equipa. “É a GNR [Guarda Nacional Republicana]”, ouve-se num tom de ligeira preocupação. Era uma urgência. O dia já não mais seria calmo.

São 09h40. A conversa telefónica decorre com fluidez e muita eficácia. Havia uma mulher idosa em risco elevado. A equipa da CooLabora fica em total alerta, a rede territorial de combate à violência ia ser activada. A técnica do GAV, criminóloga, Diana Silva, entra numa espécie de velocidade titânica, adia as consultas previstas para aquela terça-feira, passa as informações necessárias à equipa, multiplica-se em telefonemas enquanto sai a correr.

São 10h00. A vítima aguarda apoio especializado numa sala da GNR onde o recato e a discrição são condições para uma conversa demorada, dolorosa e pormenorizada. O militar da GNR recebe a técnica do GAV e contextualiza a agressão sofrida pela vítima, reforçando a emergência de intervenção e apoio estruturado à mulher de 82 anos.

São 10h15. A vítima conhece a técnica do GAV. Depois de confortar Teresa (nome fictício), Diana Silva ouve com atenção todos os detalhes dos momentos de agressão, as circunstâncias do mesmo, as doenças associadas àquele cenário de violência e, acima de tudo, o pedido de socorro. Nesta situação-limite, só um afastamento do agressor poderia dar alguma paz a esta mulher, claramente, em risco elevado. A conversa-consulta dura mais de duas horas. “É necessário que a vítima se sinta segura ao receber o nosso apoio. Não só do GAV, mas de toda a parceria da Rede”, referiu a técnica já o dia ia longo e a vítima protegida.

São 12h30. É necessário activar o acolhimento de emergência, dada a inexistência de condições da vítima regressar a casa, local onde ainda permanece o agressor. Só com posteriores medidas de coação é que a situação se poderá reverter. Conseguido o acolhimento de emergência, nem sempre um processo simples, activou-se o transporte nacional para a deslocação da vítima, e a associação parceira da rede, Mutualista, para fornecimento de refeição para a idosa.

 

São 14h00. Sempre acompanhada por Diana Silva, Teresa, do alto dos seus 82 anos de vida, é recebida no Instituto de Medicina Legal para confirmação médica das agressões de que tinha sido alvo através das marcas físicas existentes. Deslocações efectuadas no veículo da CooLabora, oferecido pela Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade. “Aqui se nota a importância do carro de serviço que nos foi doado, porque evitamos circular e conduzir as vítimas com os nossos carros particulares”, concretiza Diana Silva.

São 15h00. Teresa volta a casa com a proteção da GNR. Tinha de recolher algumas peças de roupa e, essencialmente, a medicação. Numa fuga para a liberdade em espaço de segurança não identificado, a idosa saiu daquele lugar de violência circundada de emoções tão fortes quanto ambíguas e até antagónicas. Era a sua realidade – até àquela manhã – que deixava para trás. Realidade que se tornou insuportável, que, a continuar, a levaria à morte.

São 16h00. Teresa é conduzida à CooLabora. Aguarda o transporte nacional de emergência no GAV. Nunca fica sozinha. A companhia da técnica responsável é permanente. As dúvidas de Teresa, tanto sobre o seu futuro quando o futuro do agressor, atormentam-na. O que se vai sublimando com o esclarecimento exaustivo de todos os seus direitos. É vítima de violência doméstica. É uma sobrevivente com risco elevado que será auxiliada daquele dia em diante.

São 17h00. Chega o transporte nacional de emergência que garante a deslocação segura de Teresa para o acolhimento de emergência. Na CooLabora sente-se algum lenitivo. Teresa iria ficar a salvo. Mas o trabalho está longe de terminar.

São 17h30. Diana Silva começa a escrever dois relatórios na sequência do apoio prestado a Teresa pelo GAV. O primeiro para que a mulher idosa tenha acesso a uma estrutura para pessoas idosas e o segundo, com detalhe contextual, jurídico, criminal e social, dirigido ao Ministério Público. Documentos formais que ditarão o futuro imediato de Teresa e do agressor.

São 20h30. A jornada de trabalho já vai longa no GAV. Já com os relatórios concluídos e com a protecção de Teresa assegurada, Diana Silva dá por terminado este dia de terça-feira. De um início de dia aparentemente calmo, aquela terça-feira do fim do ano de 2019 foi, afinal, uma montanha russa de emoções para Teresa, e um registo difícil e exaustivo de sentido de missão cumprida para Diana Silva, para o GAV e para toda a equipa da CooLabora. E quando se fecha a porta do gabinete? A técnica do GAV responde: “Não se desliga. As preocupações com os casos de nível de risco elevado estão sempre presentes. Estamos a lidar com vidas de pessoas. E quando sabemos que uma vítima continua em casa com o agressor que é altamente violento, em que o risco de homicídio é muito elevado, não desligamos em momento algum. Tentamos, sim, gerir estas histórias, estas emoções, estes processos, para que a nossa vida pessoal seja o menos afectada possível. Nem sempre se consegue.”

 

RSS   Facebook

 

 

CooLabora, CRL — Intervenção Social
Rua Combatentes da Grande Guerra, 62
6200-020 Covilhã PT
Tel./Fax: +351 275335427
Tlm.: +351 967455775
GPS: 40.282151, -7.504082

© 2011—2020 · CooLabora, CRL · Todos os direitos reservados.